Quarta Mar 10

Terrorismo da Criminalidade.

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O tráfico de drogas nas grandes cidades vem se constituindo em uma fonte de hostilização que bem se pode chamar de terrorista.

Quando estava finalizando esse pequeno artigo, tive a oportunidade de assistir apreensivo às notícias das ações da criminalidade em São Paulo.

Curiosamente o tema do texto era mesmo sobre as ações terroristas do crime. Já há algum tempo, o tráfico de drogas em nossas grandes cidades vem se constituindo em uma fonte de hostilização que bem se pode chamar de terrorista. A criminalidade, com suas diferentes instâncias de organização, sempre procura exercer seu mando pela imposição incontestável do medo e já emprega, ainda que de forma pouco pensada, o mesmo modus-operandi de grupos terroristas. O que acontece hoje em São Paulo poderia se classificar como inimaginável, porém é apenas um grau de incremento numa escalada acerca da qual, observadores atentos já vem advertindo e esperando há tempos. Quem poderia imaginar camelôs, supostamente em guerra pela liberação da venda de suas mercadoria explodiriam uma bomba numa movimentada rua comercial da capital paulista às vésperas do Natal ?

 

 

Quem pensaria em bandidos, no Rio de Janeiro, ateando fogo a um ônibus com pessoas inocentes dentro, unicamente como forma de afirmação de poder?

 

Estamos certos de que, nessas ações, os criminosos não refletiram muito acerca do desdobramento de tais atos, os quais, ao final, se mostraram francamente improducentes. O fato porém é que a mídia traz para dentro de nossas casa exemplos de ações terroristas que podem ser copiadas sem muito esforço, ainda que pelos bandidos mais primários e mesmo estes podem dispor de recursos para ações potencialmente muito danosas.

Olhando sob o prisma do terrorismo clássico constatamos que o crime brasileiro ainda tem foco centrado na atividade econômica do comércio de droga e embora exista um grande histórico de ações de confrontação violenta ao poder constituído, o objetivo de comercialização do produto ilícito ainda norteia as lideranças da atividade. Porém tal situação tende a agravar-se na medida que a repressão policial se tornar mais eficiente e o tráfico, como vemos hoje em São Paulo, tem um enorme potencial para constituir-se num adversário temível. Traficantes de drogas possuem dinheiro para adquirir praticamente quaisquer armas ou equipamentos dos quais necessitem e recursos igualmente amplos a fim de comprar a colaboração (e/ou a consultoria) de inúmeros maus policiais e maus militares, “profissionais” extremamente qualificados em suas respectivas áreas e cujos conhecimentos lhes pode ser de muita valia. Diversos planejamentos dos traficantes de droga cariocas são visivelmente influenciados pela instrução militar de seus idealizadores. Vários “manuais” capturados aos criminosos, demonstram que existe um incipiente e desarticulado esforço no sentido de melhor qualificar a mão-de-obra empregada pelos grupos armados, o qual certamente tende a apresentar resultados num longo prazo. Por sorte, não se trata de um esforço coordenado de um segmento ou facção, mas sim uma iniciativa isolada de uma liderança ou de um pequeno grupo, numa ação restrita a uma localidade específica. Graças a Deus o “Crime Organizado” não está suficientemente articulado para investir num esforço amplo de treinamento de seus quadros. Imagine se eles houvessem de produzir manuais impressos, com textos ilustrados e de bom conteúdo, baseado em autores como Carlos Marighela ? 

 

Quando contrapostos a um estado vacilante os bandidos, astuciosamente, “crescem” e ocupam todos os espaços que o Poder Público lhes cede. Embora sempre considerássemos que a criminalidade não buscasse atrair para si uma avassaladora campanha repressiva das forças de segurança, na conjuntura atual, quando eles se consideram suficientemente capazes para o enfrentamento, sabemos que o êxito de qualquer atentado apenas dependeria da sorte ou competência particular de seus executores. Uma vez que o sistema prisional reconhece o poder das facções e está de certa forma dependente de seu interface junto aos presos, os criminosos, se avaliando fortes, se lançam em ações cada vez mais arrojadas. Como vemos hoje, principalmente no tocante aos ataques aos órgão públicos como, delegacias de polícia e fóruns, aprender com os nossos próprios erros é sempre muito caro. Hoje constatamos estarrecidos a nossa vulnerabilidade e que praticamente não há medidas de proteção a serem burladas para que os criminosos possam perpetrar sua ação. Nas instalações militares, os guardas e sentinelas de outrora, hoje desarmados, tornaram-se pouco mais do que “vigias”.

 

 

Nossos projetos de delegacias e mesmo de quartéis privilegiam critérios puramente arquitetônicos, deixando de lado postulados elementares e tremendamente essenciais de segurança física. Hoje os nossos bandidos podem orgulhar-se de êxitos tão espetaculares quanto seus congêneres da Máfia ou dos Cartéis Colombianos. Certamente jamais lhes faltou ousadia. Em 2003 quase comprometemos o sucesso do Carnaval carioca pela repercussão de granadas de mão jogadas em áreas nobres como Ipanema e pelo incêndio criminoso de cerca de 40 ônibus em vários pontos da cidade. Já em Setembro de 2002, uma onda de rápidas ações puntuais, ameaças e boataria muito bem disseminada provocou o fechamento de praticamente todo o comércio da cidade, bem como de escolas, universidades, hospitais, postos de saúde e igrejas, em 84 bairros da capital, Região Metropolitana do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense. Isso tudo já se configurava como terrorismo; hoje assistimos uma repetição de tais fatos em São Paulo, tornada ainda mais estarrecedora pela importância sócio-econômica desse estado, para o Brasil e no estrangeiro.

Mas qual a razão de nos deixarmos surpreender? Nós temos os indícios... deveríamos tê-los levado mais à sério e nos prepararmos para com eles lidar.

Diariamente os jornais nos mostram exemplos dos armamentos sofisticados que o dinheiro sujo das drogas faz surgir à revelia da repressão dos órgãos de segurança; e mesmo o cidadão comum já deve se permitir imaginar como seria fácil fazer com que tal capital fosse transformado em explosivos como dinamites ou mesmo compostos processados com base em fertilizantes, os quais estão à disposição de qualquer produtor rural. A possibilidade de dispor de artefatos de grande poder explosivo abre para o crime organizado (em particular para os traficantes de drogas) a perspectiva de atingir quaisquer tipos de alvos com enormes possibilidades de êxito. Hoje, quadrilhas do Rio de Janeiro já produzem suas próprias granadas de mão, na realidade bombas de nipple fabricadas a partir de explosivos comerciais, com tubos de PVC e pequenas esferas de aço. Em São Paulo, a captura de meia dúzia de projéteis dão-nos a certeza de que a criminalidade já estaria produzindo aqui foguetes não guiados, semelhante ao modelo Kassam, fabricado clandestinamente pelos palestinos e empregado contra alvos israelenses. Ainda que essas armas não nos pareçam muito eficazes, elas demonstram a existência de um esforço para a fabricação clandestina de armas muito mais sofisticadas que os já conhecidos fuzís e metralhadoras artesanais capturados hoje com certa regularidade pelas forças policiais do Rio e de São Paulo. 

 

 

Foguetes de fabricação artesanal que vem sendo capturados junto à criminalidade. 

 

Fuzis de fabricação clandestina capturados numa fábrica em São Paulo. 

 

Submetralhadoras de fabricação clandestina 

 

Atualmente, além de contar com armas, munições e equipamentos de comunicações sofisticados, também os planejamentos dos nossos criminosos parecem estar se beneficiando do “Know-how” estrangeiro. Talvez isso reflita a integração entre os criminosos (particularmente os traficantes de drogas) e grupos terroristas, bastante bem representado pela prisão, há cerca de três anos, na Colômbia, de militantes procurados do Exército Republicano Irlandês. Ora, em 2005 o I.R.A., que desde o 11 de Setembro, vinha perdendo muito do auxílio financeiro proveniente de particulares nos Estados Unidos, declarou que estava abandonando a luta armada. Aparentemente vem cumprindo seu acordo com o governo Britânico, porém não nos é dado saber se todos os seus integrantes efetivamente "penduraram as chuteiras". Quem nos garante que amanhã nossos bandidos não venham a importar a mesma consultoria que os seus parceiros colombianos?

O problema é sério e muito grave. Hoje já é conhecida a integração de caráter logístico entre as FARC e segmentos do narcotráfico que atuam em grandes centros brasileiros.. Em Agosto de 2001, a polícia carioca já apreendia com um cúmplice de Fernandinho Beira-Mar centenas de quilos de dinamites, cordéis detonantes, espoletas (elétricas e pirotécnicas) e pólvora negra; Não faz muito tempo o PCC paulista abandonou um veículo num fórum criminal com 40kg de alto explosivo, numa franca demonstração da capacidade de explodir o que quiser. Desde então centenas de quilos de explosivos comerciais e militares vem sendo capturado junto aos criminosos. 

 

A simples posse de armas anti-blindados também abre pra os criminosos a perspectiva de executarem atentados de ousadia até então inimaginável. De 1997 até a presente data, sete (07) lançadores de foguete M-72 de 66mm, de fabricação americana, porém de procedência diversa, já foram capturados intactos à criminalidade carioca. Em favelas do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, as Forças de Segurança Pública já detectaram a atuação de veteranos da Guerra Civil em Angola fornecendo “consultoria militar” para uma facção da criminalidade.

 

Lançadores de foguete M-72 apreendidos no Rio de Janeiro


Uma das principais lições decorrentes da análise do histórico das ações do narcotráfico é apreendemos que, de uma forma geral, armas, as ações e táticas que hoje se empregam no exterior, poderão ser repetidas amanhã em nossas ruas. Esse enfrentamento é uma guerra, a qual demanda a união de todos os setores da sociedade, principalmente os da segurança pública e privada. O que os criminosos fizeram em São Paulo foi mesmo uma declaração de guerra, franca e aberta. Isso por si só seria o cheque em branco para que o governo endurecesse e ganhasse a opinião pública. É fato que os criminosos são insidiosos e que ocupam qualquer espaço que o poder público lhes proporcione. Nossos escrúpulos são costumeiramente tomados como fraquezas e aí eles se fazem. Ainda mais quando contrapostos a políticos fracos, daqueles que imagina viver na República de Weimar. Neste recente incidente em São Paulo, a questão de segurança pública foi muito mal gerida, porém não se pode deixar de lembrar que o atual governador apenas ocupa o cargo há semanas e que as verdadeiras causas vem se alicerçando – sem o efetivo combate pelo Estado – ao longo dos últimos anos. Um discurso duro já teria levado o PCC a refletir sobre a propriedade de suas ações. Sob liderança do governo, ou melhor, talvez, na ausência dela, se preferiu "fazer por menos" e o resultado está aí, exemplar e espetacularmente divulgado pela mídia.
Vivemos hoje o reflexo de uma atitude complacente para com o crime que, ao atacar instalações militares, deixa claramente transparecer que não teme mais o poder do Estado. A contemporização há muito vem sendo encarada pela criminalidade como fraqueza e isso não nos assegura dias melhores. Nossa sobrevivência enquanto cidadãos livres está intimamente ligada a esse “bom combate”. Precisamos realmente ensejar ações coordenadas, de todos os setores da sociedade, a fim de re-colocar essa situação nos eixos.



*VINICIUS DOMINGUES CAVALCANTE, CPP, o autor, é consultor segurança certificado pela American Society for Industrial Security e integra a Diretoria de Segurança da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
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Author of this article: Vinícius Domingues Cavalcante, CPP

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